terça-feira, 3 de novembro de 2009

Crônicas De Magnólia

As Rugas Do Cérebro

É extremamente irritante para mim quando penso na quantidade de vícios estúpidos que as pessoas, especialmente as de mais idade, mantém nos dias contemporâneos, vícios estes que se disfarçam sob o esteriótipo de bons costumes, ou para os mais flexíveis, sob o esteriótipo de tradição.
Como o leitor já analizou milhares de conclusões iguais a esta, seja em jornais ou revistas de auto-ajuda, este texto lhe parecerá perca de tempo, mas sinto desapontá-lo; "vícios estúpidos contemporâneos" não é a pauta a ser discutida neste texto, na verdade é apenas um desses vícios que discutirei, em função de ser um dos mais importantes, e que, infelizmente, gera pouquíssimas discussões, na minha opinião.
A idéia de discutir este assunto partiu de um relato de uma colega, Ana, durante seus tempos de escola, que era diferente da minha. Permita-me explicar-vos nas linhas a seguir.
Estava ela sentada em sua carteira cheia de corretivo e, como a aula estava muito chata, resolveu conversar com uma amiga da carteira anterior, que estava conversando com a amiga da carteira anterior a dela, e assim por diante. Era dois mil e seis e elas conversavam sobre o escândalo na praia envolvendo a Cicarelli. Ana resolveu participar.
Passados quatro segundos, o professor chamou a atenção do grupo e elas, como boas alunas abaixaram a cabeça e fizeram caras de tristes. E como de costume, deu-se início a habitual advertência, lembrando, em respeito a Ana, que ela não era contra advertências em sala de aula, embora vivesse reclamando a respeito do repertório, que deveria ser mais variado. E o discurso foi:
"Não é possível!Duas horas preparando essa droga de aula e vocês "não tão" nem aí!!"
E como de praxe, ele recitou o que ela chamou de "Rotina Do Bom Professor". Que era mais ou menos assim:
"Eu acordei as seis horas da manhã, escovei os dentes correndo, mal tive tempo de tomar café, levei meus dois filhos para a escola, enfrentei trânsito..." E por aí vai, até ele chegar ás sete horas da manhã na escola.

Ana sentiu-se nervosa. E ele continuava a falar ininterruptamente:
"...Vocês me respeitem; eu não sou pai de vocês, eu não sou avô de vocês, eu não sou tio de vocês..."
E continuou, até a árvore genealógica secar.
"Além do mais eu sou muito mais velho do que vocês. A mãe de vocês não "te deram" educação? Não ensinaram vocês a respeitar os mais velhos?"
Aí, Ana, que naquela época tinha espírito revolucionário, além, é claro, de estar totalmente intoxicada por aquele discurso rotineiro sem o pingo de criatividade, respondeu:
"Descupe, professor, mas se velhice fosse sinal de respeito e bom caráter Fernando Collor não estaria chegando aos sessenta anos".
A turma toda começou a rir enquanto o professor olhava Ana, notadamente raivoso. Confessei a Ana, durante a conversa que achei errada a atitude dela ao responder diretamente o professor de forma tão dura, que isso não correspondia com seus preceitos de moral e que não há nada pior que ser constrangido publicamente, mas não tirei dela o direito de afirmar que a essência de sua resposta era correta, pois para mim caráter nunca esteve e nunca estará na pele enrrugada ou nos cabelos brancos e sim nas atitudes tomadas pelas pessoas, sejam elas idosas, adolescentes ou crianças.
Você cederia o sua cadeira no ônibus para um velhinho bigogudo chamado Adolf Hitler? A menos, é claro, que ele ele estivesse apontando uma bazuca para a sua cabeça!
Pessoas vivem e morrem e durante o tempo em que vivem acontecem coisas boas e ruins, em proporções variadas de pessoa para pessoa (o porque ninguém sabe). Precisamos tirar o melhor de todo o pior que nos é proporcionado na vida e fazer disso uma busca diária, independente desses estereótipos ridículos e idade. Otimize a vida, otimize o tempo!
Tudo, tudo, tudo na vida é belo, desde a lágrima que escorre, desde o sorriso que se abre. Tire o bom destas duas faces. Assim, você se tornará um velho sábio. Saberá amar e aceitar o próximo, porque brigar dá trabalho demais e é desnecessário comer a parte podre da maçã, enquanto se pode comer a parte boa e descartar a podre. Otimize a vida, otimize o tempo!
Por fim, gostaria de contar ao leitor um traço que prezo muito em minha personalidade: para mim, as únicas rugas que definem uma pessoa são as do cérebro, e não as do rosto.







Magnólia é uma cantora, compositora, poetisa e escritora brasileira.

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