18 de abril de 2010
O Dia Em Que Matei Meu Amigo Piano
Quando eu descobri que música era um sonho distante, eu resolvi matar meu piano.
Abri ele pela última vez e deslizei meu nariz sobre as teclas, para sentir o cheiro que eu tanto amava. Depois repousei três dedos sobre três teclas, e toquei um acorde imaginário de dó.
Se eu ouvisse o som, talvez desistiria.
Era o som que embalava as minhas composições...
Passava tardes e tardes para tirar uma música, e quando conseguia, tocava chorando de felicidade. Eu não cansava de construir, minuciosamante, cada pedacinho do que meu coração ditava, e que eu tentava interpretar com os músculos dos meus dedos e com o som da minha voz.
A Música era toda minha e expunha as necessidades da minha alma. Era um ópio que em um mundo de bilhões, havia sido fabricado para mim.
Talvez se eu pudesse gritar para mais pessoas as melodias do meu coração, mais alguém me entenderia, e eu não me sentiria estranha, excêntrica, como as vezes me sinto.
Não que haja mal em ser "louco", pois quando digo louco quero dizer lúcido. Mas o problema em ser lúcido, é justamente ser só. Só encontrei uma pessoa para conversar. Fiquei tão feliz. Mas caí na burrice de amá-la. Afinal, além de mim, alguém mais me entendia.
E é claro, se eu gritasse as coisas que estão dentro do meu coração, talvez as pessoas não me veriam como ameaça. Ser diferente não seria mais a guerra que é pra mim...
Não sei onde foi parar meu grito, meu choro, minha paixão. Talvez tenham sido tudo sepultado junto com as lágrimas que caíam sobre o piano. Enfim, não sou pessoa e sim robô. Um robô que agora, não se deixa massacrar pela inveja alheia, e sim massacra e zomba os que tem inveja. Mas ainda assim não sabe gritar.
Quando acabava de compor, minha alma estava limpa e em paz. Eu ficava feliz, como se tomasse um remédio milagroso. Sem pressionar os dedos então, eu toquei meu acorde de dó, porque matar alguém chorando é pior que matar alguém calado.
Eu nunca compus para as pessoas, pois minhas músicas eram pedaços de mim. Eram minhas canções de ninar, que davam roupagem aos meus gritos mais profundos, e ás minhas paixões mais intensas.
E quanto ao pavor incanssável da minha alma, só minhas músicas tornava-o bonito, lírico e suportável. Hoje ele me mata, me tortura por dentro. E á noite, quando a dor é cortante, eu choro sozinha e invento uma nova canção de ninar, surda, e que me faça dormir.
Quando cheirei meu piano mais uma vez, percebi que ele não tinha chave.
Eu poderia muito bem "esquecer" que o matei, já que o ser humano tem enorme capacidade de enganar a si próprio. Fiquei sem saber o que fazer. Como enterrar um caixão aberto?
Acabei pegando um lápis de olho e escrevendo sobre as teclas brancas: "O estranho piano que conduz a minha vida".
Estava aí a minha lápide: esperançosa dentro do possível e com um ar aventuresco. Algum dia tudo poderia mudar, como sempre havia mudado, embora a maioria das vezes tenha mudado para pior.
Doeu matar meu melhor amigo e cada letra desenhada era um pouco de terra jogada em seu caixão. Porém, vocês não sabem o que aconteceu...
Logo no finzinho do último "A", a madeira do piano começou a fazer barulho. Alguém dava murros nele. Porém não havia ninguém no meu quarto a não ser eu.
"Quem está aí ?" - disse eu.
"Sou eu,
Magnólia, me tira daqui" - disse a minha própria voz, gritando e chorando.
Não havia como tirar a tampa do meu piano porque ele não era de calda.
"Quem é você ?" - perguntei eu com um cinismo macabro, pois queria ter certesa que era eu.
"Sou sua alma. Olha o que você está fazendo comigo, sua desgraçada. Eu te odeio, seu monstro". - berrou minha voz, em completo desespero.
Eu chorei, porque estava confusa e com medo. Então eu disse:
"Eu tenho que ir embora".
Quando eu disse isso, a minha voz gritou mais alto dentro do piano, e era horrível ouvir minha própria voz, suplicando e chorando...
"Eu vou morrer, por favor me tira daqui... Aqui dentro não tem ar...Pelo amor de Deus, não faz isso comigo...Socorro !!!" - dizia ela desesperada.
"Eu preciso de ar" - suplicou ela mais uma vez.
Minha mão estava inerte sobre a tampa do piano. Minhas lágrimas, antes de emoção e alegria, caíam frias sobre as teclas, tornando-se lágrimas negras.
"Eu não posso" - disse eu enquanto terminava a letra "A" com o lápis de olho.
Fechei a tampa.
Ela ficou chorando até eu dormir, depois parou.
Mas acho que ela não morreu. Só está triste porque não pode sair de dentro do piano. Acho que quando estou na escola ela sai e anda pelo meu quarto e até toca meu piano. Mas ela não pode sair por muito tempo e aí fica triste e sozinha.
Mas acho que ela não vai morrer, porque apesar de estar longe dela eu sei o que ela sente e sinto igual, embora eu possa caminhar despropositalmente e conhecer pessoas.
Fico triste porque apesar de estarmos em locais tão diferentes, nos sentimos muito iguais.
Magnólia é uma cantora,
compositora, poetisa e escritora brasileira.