terça-feira, 3 de novembro de 2009

Crônicas De Magnólia

A Mancha

Durante uma festa comemorativa do colegial, Renata e sua família, devido ao limitado espaço, dividiam mesa com um casal de meia-idade. Após certo tempo, travaram-se conversas banais entre os componentes da mesa e Renata, sempre soturna e distante, não prestava a devida atenção, até que o senhor da mesa disse algo a seu respeito, indiretamente: "Nossa, como sua filha é bonita...". Como o comentário não foi feito diretamente a ela, não se achou no dever de responder. A mãe se encheu de orgulho enquanto a senhora disfarçava o constrangimento em um sorrisinho sarcástico.
O senhor repetiu o comentário diversas vezes e a olhou furtivamente deixando-a constrangida a ponto de sair da mesa e ir conversar com uma colega. Quando voltou, o casal já havia saído e a mãe de Renata, animada com aquele sorriso que tenta emitir uma alegria que os olhos já não conseguem transpor, disse cheia de orgulho: "Filha, você não acredita no que eu ouvi!Quando você saiu da mesa aquele senhor te encheu de elogios, disse que você era linda e que meninas como você...Bem... - parou ela com medo reação de Renata. "O quê, mãe?" - respondeu ela, constrangida com o intusiasmo da minha mãe por ela ser menor de idade e estar recebendo investidas de um velho sem escrúpulos.A mãe continuou: ..."Ele disse que eu devia casar você com um velho rico o mais rápido o possível. Não é maravilhoso?!" - disse ela se desmanchando em risos. Renata respondeu perplexa, se sentindo um produto, extremamente humilhada e diminuída: " E você deixou ele dizer isso?". A mãe respondeu, com seu semblante marcado pelas amarguras da vida: "O que é que tem isso?Você é bonita, tem mais que se casar com um velho rico que te sustente".
Renata não quis argumentar. Não valia a pena, conhecendo sua mãe como ela conhecia. Todos nós, quando jovens, acreditamos na decência do mundo e das pessoas. Fazemos do mundo um faroeste e separamos os vilões e mocinhos. Nós, é claro, somos os mocinhos. Os vilões são geralmente as pessoas fúteis, os meios de comunicação em massa e o governo. Nos aliamos a pessoas boas e fazemos projetos, que são grandes ou pequenos. Descobrimos que as pessoas boas não eram tão boas e taxamos de vilões. Fazemos o certo porque é bonito, o irreverente porque é revolucionário, mas quando crescemos os motivos passam a ser outros e começamos a analizar causa e consequência. E pouco a pouco vamos sendo manchados por um realismo sarcástico, com fortes doses de inconformismo. O inconformismo de ver injustiças e ficar calado. O inconformismo de não poder ser quem é em qualquer ocasião e para os menos afortunados, o inconformismo de não se casar com quem bem entender.A vida perde as flores e ganha equações. E nós perdemos nós mesmos.
Aquela foi a primeira "mancha" de Renata. O primeiro conflito com o universo sujo que ela habitava. Ela descobriu que não existiam vilões nem mocinhos, e sim pessoas cheias de manchas iguais as dela, e a cada dia que se passou os olhos dela ficavam mais astutos para o mundo e menos inocentes para ela mesma.





Magnólia é uma cantora, compositora, poetisa e escritora brasileira.

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