O Espelho. A Alma. Os Olhos.
A sessão é dedicada a textos que eu escrevi quando era criança. Quando criança, era feia. Ontem me olhei no espelho e me achei bonita.Quando criança, eu vivia rindo. Mas tanta coisa aconteceu que aos poucos eu fui parando de rir. Por um tempo sofri por não poder mais rir e na escola dizia que queria morrer. Sem saída começei a rir emcima do sofrimento. Foi quando meus olhos perderam o brilho. E hoje vejo que apesar de ser bonita não tenho brilho nos olhos. Talvez o que eu chamo de felicidade durou só até os nove anos. Toda vez que algo muito ruim acontecia eu esquecia, fingia que não havia de fato acontecido. Com o tempo não deu mais para fingir. E a felicidade foi indo embora, junto com o brilho dos meus olhos. A beleza simples se perdeu. Junto com a criança, que deu lugar a uma outra criança, com muito medo de ser uma criança de verdade...Com felicidade, daquelas que a gennte vê brincando nos parquinhos da cidade, uma felicidade quase bestial. Criança que acha o mundo lindo, que transforma uma gangorra num tobogã e uma rede em um navio pirata. Que ás vezes chora, mas ignora. Que ás vezes chora demais e não consegue mais sorrir, e vira adulto. Cedo ou tarde demais. Comigo foi aos nove. Isso se refletiu na minha poesia. O vocabulário se expandiu e poesias que eram para ser pequenas, belas e suscintas passaram a ser grandes, ornamentadas e melancólicas. No fundo já não eram poesias, eram gritos de sofrimento vindos da alma. Uma alma que não era mais pura e sim contaminada por rancores, inconformismos e ódios. A poesia real não é manchada pelo rancor, pelo feio, pela indecência. Só crianças fazem poesia. Quando digo criança não me refiro á idade e sim ao que eu perdi aos nove anos, e que ninca mais recuperarei. Hoje eu me olhei no espelho e vi uma menina bonita dos olhos vazios, mas eu daria tudo para ser aquela garotinha gorda , bochechuda, cheia de sardinhas e do cabelo despenteado...Como os olhos felizes.
Jéssica Calegário
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