domingo, 14 de outubro de 2012

Folhetim

O Homem Que Acordou em São Paulo - Parte III


- Você nunca vai ficar sozinha. – disse Pedro


-Não pertenço a esse mundo. – disse Maria

-Lembre-se de que agora seu planeta têm mais um habitante. - disse Pedro

Os dois sorriram-se emocionados.

-Você promete voltar? –perguntou Maria

-Sim, sempre. – disse Pedro

- Você e Judite? – perguntou Maria

-Sim. Ela ia adorar esse seu planeta todo desarrumado, com livros coloridos pelo chão e roupas esquisitas no bidê... – disse Pedro sorrindo

-Perdido na Via Láctea. – riu Maria

-Sim. Certíssima. – sorriu Pedro, emocionado

-Prometa que vai se finjir de lúcido. Não cometa o mesmo erro que eu. –disse Maria.

- Sim. E prometo que não me contaminarei. – disse Pedro

Maria sorriu.

-Fuja. – disse Pedro veemente

-Eu sou feliz aqui. – disse Maria

-Você nunca conheceu outro lugar- disse Pedro, ironizando.

-Conheci minha casa e o pátio da escola. O suficiente para não querer conhecer nenhum lugar. – disse Maria

- Você irá cair, cem, duzentas vezes. Mas é seu dever se levantar. – disse Pedro

-Não sou forte. Meu coração é de vidro. – disse Maria

-Se torne forte. – disse Pedro, comos olhos arregalados, segurando uma lágrima, enquanto apertava forte a mão da jovem mulher.

-E se eu começar a chorar? – perguntou Maria

-A lágrima é a cura da ferida. Não pense que chorar irá depravar sua alma. Não se pode mudar a alma, pode-se apenas machucá-la. – disse Pedro

-Isso já não é o sufiente? – perguntou Maria

-Não quando se sabe quem se é. – disse Pedro

- Quando a vi, pensei que fosse uma doida. – continou Pedro

-Eu sou. – disse Maria

-Não. Você é extraordinária! – exclamou Pedro.

-Não está dizendo a verdade. Logo voltará a trabalhar e aos poucos virará Leão. Esquecerá de me visitar. Lembrará desse dia e dirá: “Pena que a vida não é assim”. – disse Maria

-Maria, a questão está aí. Preciso de você para lembrar quem eu sou. – disse Pedro




Pedro e Judite são felizes. Pedro vendeu a empresa e comprou uma editora, onde lança ao mundo as idéias das pessoas. Maria escolhe os livros e chama a editora de “A Menina da Bolha”, analogia ao filme de Randal Kleiser. Ela diz que é possível um novo mundo para cada pessoa, e que através dele é possível respirar o mundo todo.










Magnólia é uma cantora, compositora, poetisa e escritora brasileira.



















Folhetim

O Homem Que Acordou em São Paulo - Parte II

- Meus médicos sempre foram caros e bons, abriram meus olhos... Confesso que foi complicado.


-E? - perguntou Pedro.

- Meu mundo não mudou, está tudo cinza, mais cinza que São Paulo... Eu acho que é por isso que esse lugar é branco.

Pedro riu, e disse:

-Não é por isso. Aqui, de certa forma, é um hospital, portanto é preciso mantê-lo higiênico, a fim de preservar a saúde dos pacientes. - respondeu Pedro.

- Eu sei disso, seu otário. - disse Maria, séria.

Neste momento, Pedro se apaixonou por ela.

- Fale um pouco sobre seu mundo cinza. - disse ele, atencioso.

- Pois bem. Tenho bons médicos e sinto que estou me acostumando com o cinza. Estou descobrindo que ser diferente não é subversivo, anormal e que ninguém pode me bater por isso, como os meus colegas faziam, e como meu pai fez quando descobriu que eu não queria estudar. - disse Maria.

- E o que você fazia? - perguntou Pedro.

- Como assim? - perguntou Maria.

- Você passou vinte e oito anos fazendo o quê? - perguntou Pedro.

- Eu gosto de ler. - respondeu Maria.

- O que você lê? - perguntou Pedro.

- Eu leio de tudo... Venha, vou mostrar meus livros. - disse Maria andando à frente de Pedro, para que ele a seguisse.

Subiram uma ladeira branca com corrimão de alumínio, até chegar em um corredor cheio de portas. Praticamente tudo era branco.

- É onde eu vivo. - disse Maria abrindo uma das portas brancas.

- O que você acha? - perguntou Maria.

-É diferente do resto do sanatório. Quer dizer, o sanatório é todo branco...Aqui têm livros com capas coloridas, espalhados por todo o canto. Roupas suas no bidê, outras no chão...

Maria riu para Pedro.

- Eu concordo. Têm um pouco de mim aqui. - disse ela.

- Fique à vontade. Desculpa, aqui não têm cadeira, só o "puff" - disse ela apontando para o "puff", uma imenso travesseiro de lona vermelha, com um formato que propicia o conforto, misto de cama e cadeira.

Pedro sentou no "puff''

- É confortável - disse ele.

- Tem livros vários clássicos da literatura aqui, além de livros teóricos... Porque não fez Literatura? - perguntou Pedro.

- Por que eu faria Literatura, se os livros estão aqui? - disse Maria.

Pedro pôs as mãos em uma espécie de caderno.

-Não mexa nesse, é meu diário. - ordenou Maria.

- Por quê não? - perguntou Pedro.

Maria hesitou um pouco, depois disse:

- Foi a segunda coisa sensata que você me disse, Pedro. - disse Maria.

Pedro abriu o diário. No centro da primeira página estava escrito:

"Este diário é a minha vacina contra o mundo, com ele nunca estarei perdida."

Pedro sentiu o coração bater. Sintoma de paixão.

"Quem está perdido sou eu" - pensou ele

- Você está perdido, Pedro? - perguntou Maria.

Pedro assustou-se.

- Como assim, o quer dizer com isso? - disse Pedro, com medo de Maria ter percebido algo do que ele estava sentindo.

- Como assim? - insistiu Pedro.

- Não é culpa sua. Todo mundo está perdido nessa cidade.

- O que você quer dizer? - disse Pedro sentindo-se exposto.

- Está tudo tão cinza que ninguém enxerga ninguém. A fumaça deixou todo mundo doente e triste, fechados em seus mundos..Cada vez mais ocupados, cada vez mais atrasados...Cada vez mais animais, esbarrando uns nos outros, xingando uns aos outros. - disse Maria, olhando para Pedro com profundidade.

- Deve ser por isso que você nunca transou com ninguém. - disse Pedro, tentando proteger tudo o que sabia da vida até então.

- Foi a terceira coisa sensata que você disse, Pedro. - respondeu Maria

- Você me deixa com medo. Você me confunde. Uma pessoa nas suas condições não deveria me confundir. Além disso você é jovem, não sabe nada da vida. - disse Pedro agressivo.

Pedro esperou que a menina se comovesse com suas brutas palavras. Mas Maria continuou a olhar para Pedro, com tanta segurança, convicção e firmeza, que subitamente ele sentiu-se invadido, inseguro e perdido, como uma criança.

O homem da Empresa chorou.

Muito.

Maria, levantou se da cama, ajoelhou-se e abraçou-o. Sentou no puff e pôs a cabeça de Paulo em seu colo. Como uma mãe, acariciou seus cabelos para aliviar seu sofrimento.

- Não é nada, Pedro. Você só está perdido... Tudo vai ficar bem! Eu sei como você se sente, me senti assim por muito tempo... - disse Maria

- Desde quando? - perguntou Pedro.

- Você já sabe, desde quando entrei para a escola. - disse Maria.

- Eu tenho cinco anos de idade. - disse Pedro.

- Não. Você acaba de nascer - disse Maria beijando-lhe a testa.

Ali permaneceu Maria, acariciando o filho a quem deu a luz. Ficaram ali por três horas.

-Conte-me da mulher que você amou - perguntou Maria.

- O nome dela é Judite. - disse Pedro chorando.

- Onde ela está agora? - perguntou Maria.

- Eu não sei. A cidade está vazia. - disse Pedro.

- Pergunga boba a minha. - riu Maria.

- Não - disse Pedro puxando a mão de Maria para si e beijando-a, e depois deixando-a deslizar suavemente para o lugar onde a mão estava em seus cabelos.

- Me fale da primeira vez em que fizeram amor. Quando foi? - perguntou Maria.

- Foi no dia do aniversário dela, éramos amigos de Faculdade... Fizemos uma festa surpresa para ela, faltamos aula e compramos o bolo, as bolas. Fizemos cartazes...

- Não imagino você matando aula. - ironizou Maria.

- Você me conhece muito, Maria - disse Pedro.

- É fácil conhecer uma pessoa quando se presta um pouco de atenção nela. Mas diga, você escreveu algum cartaz? - disse Maria.

-Sim. - respondeu Pedro.

-E o que dizia? - perguntou Maria

- Feliz aniversário! Eu te amo, Judite! - disse Pedro.

- Criativo.- disse Maria

-Sim. Tinha várias pessoas lá, ela não saberia que era eu. - disse Pedro.

- Pelo jeito ela acabou sabendo. - disse Maria.

Os dois sorriram-se.

- Continue. - disse Maria

-O que? - perguntou Pedro.

- O que aconteceu durante a festa? - perguntou Maria.

- Durante a festa eu não bebi. Deixei que todos bebessem, e disse para Judite que não bebesse. Ela perguntou por quê. Eu disse que só iria dizer depois. Ela sorriu, acho que já imaginava. - disse Pedro.

Paulo sorriu, e continuou:

- Bem, quando todos estavam caídos no chão e só restavam Paulo e Roberta transando na escada, eu e ela estávamos sentados no sofá, relaxados, tinhamos rido bastante dos bêbados. Ricardo havia subido na mesa de Judite e começado a tirar a roupa. Conseguimos impedir que ele tirasse a cueca. - disse Pedro.

Pedro e Maria riram.

Pedro continuou:

- Eu fui até a parede, descolei o cartaz que eu tinha feito, e voltei com ele aberto. Ela levantou do sofá, se aproximou, e me beijou.

- O que você sentiu? - perguntou Maria.

-Eu me senti a dez centímetros do chão, em outro mundo, minhas mãos suavam... - disse Pedro

-E? - perguntou Maria.

- Ela pegou a minha mão e me puxou para o quarto dela. Foi o momento mais feliz da minha vida. - disse Pedro.

- Não vou perguntar mais, pode deixar - disse Maria sorrindo.

-Deixe eu ficar aqui, não me abandone, ainda me sinto fraco. - disse Pedro.

- Vou ficar aqui o tempo que precisar. - disse Maria.

Maria acariciou levemente o cabelo de Pedro até que ambos dormissem.

Na manha seguinte, Pedro acorda deitado no colo de Maria, exatamente como na noite passada, exceto que Maria "tombou" para trás, ajeitando-se como pôde no puff, e seu ventre acabou servindo de travesseiro para Pedro.

Pedro a pega com cuidado e a deita na cama branca. Depois de levantar a cabeça de Maria para pôr o travesseiro, a mesma abre os olhos cansados.

- Durma, Maria. - disse Pedro.

- Vá encontrar Judite - disse ela, bêbada de sono.

- Essa foi a coisa mais sensata que você já disse. - disse ele, sorrindo para ela.

Maria não ouviu, pois dormiu tão rapidamente quanto acordou.

Pedro saiu do quarto, atravessou o corredor branco, desceu a rampa com corrimão de alumínio, atravessou a enfermaria e ao chegar no pátio deparou-se com alguns enfermeiros.

Um idoso, sentado em uma cadeira de plástico, no portão do sanatório, ao perceber que um homem de cueca saía do prédio, gritou:

- Lúcia!! Segura esses doido!!

Pedro correu para dentro do prédio, porém, logo a entrada encontrou um enfermeiro que o impedisse de subir. Sem resistir , e com as mãos imobilizadas pelo enfermeiro, que o seguia logo atrás.

- Não precisa me segurar, eu não vou fugir.

O enfermeiro não respondeu, como se Pedro não existisse. Ninguém dá ouvido aos loucos que vestem apenas uma cueca rasgada. Se Paulo ao menos estivesse com seu terno, aquela cena poderia ser evitada.

Chegando a enfermaria , dois enfermeiros ao perceberem os passos do policial, olharam sérios para o ridículo louco de cueca rasgada.

- Aqui está. - disse o enfermeiro, entregando o pacote de loucura.

- Você o conhece? - perguntou o enfermeiro.

Os enfermeiros entreolharam-se. Ninguém conhecia o louco.

- O que faremos? - perguntou um dos enfermeiros.

- Olhe as fotos nas fichas, idiota. - disse um enfermeiro.

-Temos mais de trezentos pacientes, idiota - rebateu o outro enfermeiro.

- Sou amigo de Maria.

- E eu sou amigo de Jesus. Pode especificar qual Maria? - disse um enfermeiro.

- Ele é louco, esqueceu? - disse impacientemente o enfermeiro, que continuava segurando o pacote de loucura, para se ele não se abrise e se espalhasse por todo o prédio de sanidade.

- Santos, Geordani Maria, segundo andar. - disse Pedro, morrendo de raiva.

- Vamos ver as fichas, não custa nada. - disse um enfermeiro, que levantou-se, abriu o mesmo ficheiro que Maria havia aberto.

- A ficha não está aí. Maria tirou, está em cima do ficheiro. - disse Pedro impaciente, mas controlado.

O enfermeiro pôs a mão no alto do grande ficheiro de ferro.

-É verdade, está aqui. Parece que ele não é louco. - disse um enfermeiro.

- Não solte ele ainda. Existem loucos inteligentes. - disse o outro enfermeiro para o enfermeiro que segurava Pedro.

- A maioria deles são. - disse Pedro, sendo novamente ignorado.

Um enfermeiro foi subindo a ladeira branca com corrimão de alumínio.

Minutos depois, Maria aparece, também com as mãos presas pelo enfermeiro.

- Solte-a. - disse o outro enfermeiro.

- Por quê?

- Ela não é louca. É depressiva.

- Você é médico?

- Não. Mas se ela abrir a boca para o pai nós estamos ferrados.

- O pai dela se chama dr. Emílio Médici, e é o dono do sanatório, na verdade é dono de vários.

O enfermeiro soltou logo a jovem mulher, assustado e disse:

- Me desculpe, não diga nada ao dr. Médici. - disse o enfermeiro.

- Ele te queimaria vivo, como um herege - disse Maria divertindo-se.

Depois, vendo o desespero do rapaz, disse:

- Acalme-se, sou uma boa cristã . - disse ela simpática, piscando para o rapaz e deixando-o tranquilo.

- Você conhece ele, Maria? - disse o enfermeiro que segurava Pedro.

- Sim, é meu namorado. Ele pulou o portão e subiu a janela até o segundo andar, não é garanhão? - disse ela olhando cínica e sensualmente para Pedro, que abaixou a cabeça, vermelho de vergonha.

- Isso está me cheirando mal. O que a filha do dr. Médici iria querer com um cara que usa cuecas velhas rasgadas.

-Se você soubesse a quanto tempo não recebo ninguém no meu quarto entenderia o meu desespero. - disse Maria.

Um enfermeiro não aguentou e riu.

Pedro ficou ainda mais vermelho.

O outro enfermeiro disse:

- Deixe que ele volte ao quarto de Maria e vista-se. Depois ela mesma o encaminha ao portão.

O enfermeiro soltou as mãos de Pedro, deixando que Maria o pegasse pela mão e o levasse até seu quarto, no segundo andar.

-Me desculpe, Pedro... - disse ela ao chegarem à porta do quarto.

- Você é uma louca muito inteligente. - disse Pedro, irônico.

-Obrigada. - disse Maria sorrindo-lhe.

Ao entrarem no quarto, Maria fecha a porta e logo depois bate na testa, indicando esquecimento.

- Não tenho roupas de homem.

- Essa camisa é de homem.

-É mais eu só tenho a camisa.

Maria abriu a porta, e minutos depois voltou.

- Disse ao enfermeiro que arranja-se uma calça para você. Não se preocupe.

- Não estou preocupado com isso, estou preocupado com o argumento que você usou.

Maria riu.

- O que aprontou ,Maria? - disse Pedro, suspirando com desânimo.

- Disse que eu estava com tanto tesão a noite passada, que acabei rasgando suas calças com os dentes!! - conclui Maria, morrendo de rir.

- Meu Deus... - disse Pedro, sentado na cama, baixando a cabeça e segurando-a de forma que suas mãos penetrassem os cabelos.

- Relaxa, Pedro! - disse Maria.

-O.K. - disse Pedro, relaxando.



Alguém bateu à porta. Maria abriu. Era um enfermeiro.

- Só conseguimos essa calça no "Achados e Perdidos". - disse o enfermeiro, estendo à Maria uma calça jeans tão gasta que estava quase branca.

- Obrigada. - disse Maria.

O enfermeiro pensou em perguntar onde estavam as calças rasgadas, mas temia dr. Médici mais que tudo. Fechou a porta e saiu andando.

- O que Judite vai pensar ao me ver asssim? - perguntou Pedro, desanimado.

- Vai achar que você é um novo homem - disse Maria.

Pedro vestiu a calça. Maria escolheu uma roupa no bidê e se dirigiu ao banheiro para tirar a camisa que iria dar a Pedro.

Em menos de dois minutos estava vestida.

-Você se arruma rápido para uma mulher. – disse Pedro.

-É porque passo mais tempo pensando. – disse Maria.

- Que tipo de pai prende a filha em um hospício.

-Foi culpa minha.

-Por quê?

-Eu expus minhas ideias, eu quis ser o que eu era.

-Não se culpe. Ser revolucionário é difícil em qualquer sociedade.

- Eu devia fingir que eu era normal, entende? Devia ter sido inteligente, como Galileu foi...

- A voz de Galileu já havia ecoado para todo o mundo. Já era hora de ele se calar.

- Você está certo. Ninguém é capaz de arrancar uma memória.

- E você era só uma menina. Galileu era um velho barbado.

-Isso não importa. O que importa é que minha voz nunca atravessará essas paredes brancas.

Maria começou a chorar.

- Isso me deixa tão triste... – disse Maria chorando.

Pedro pensou, ávido por uma responde que contesse a dor de Maria.

-Você mudou minha vida, e isso eu contarei a todos que eu puder.- disse Pedro

-Obrigada Pedro. – disse Maria abraçando-o.

- Tenho medo de enlouquecer. Não tenho ninguém para conversar e os enfermeiros não me levam a sério. – disse ela soltando-o.

- Você mesma disse que qualquer um pode viver sozinho, lembra?- disse Pedro

- Eu não tinha conhecido nenhum amigo.- disse Maria

Pedro chorou e abraçou-a.

-Fuja daqui! – disse Pedro.

- Não posso. – disse Maria

- Sua mãe vê isso com bons olhos? – perguntou Pedro

-Mamãe morreu. Papai matou-a. – disse Maria

- Ele devia estar preso! – disse Pedro

- Ele esteve preso por seis meses. – disse Maria

- Entendo... – disse Pedro, revoltado e ao mesmo tempo conformado. Esqueceu do que dinheiro significa em um país sem leis.

-Porque culpou ela por quem eu fui e ainda sou, e também porque ela falava demais para o gosto dele. Meu pai é um leão . Faminto. Irracional. Cansado. – disse Maria

-E ele piora com o tempo, não é? – perguntou Pedro

-Como você sabe? – disse Maria enxugando as lágrimas com as costas da mão.

- Já fui um leão. – disse Pedro

Pedro silenciou-se, pensativo.










Magnólia é uma cantora, compositora, poetisa e escritora brasileira.



Folhetim

O Homem Que Acordou em São Paulo - Parte I


Às sete horas da manhã, o despertador toca. Pedro levanta-se, toma banho, penteia o cabelo, passa gel e põe uma cueca velha e rasgada, apesar de muito confortável. Depois põe a calça social, o cinto social, a camisa social e o terno social, artigos socialmente caros. Se olha no espelho e sente orgulho de si, pois trabalha na Empresa.

Pedro passou 21 anos na empresa. Começou como atendente, depois atendente-geral, depois gerente, depois gerente -geral, depois diretor, depois diretor geral, e por fim, lá no espelho se encontrava o presidente de Empresa.

Cansado, velho, e com olheiras. Mas isso eram apenas detalhes.

Desceu até a garagem, entrou no carro, e como sabia do trânsito de São Paulo, trouxe umas planilhas no colo, enquanto as lia, esperava o engarrafamento ceder. Eram importantes as planilhas, pois se bem estudadas trariam dinheiro para Empresa, e também para Pedro. Com o dinheiro compararia ternos caros, um carro mais caro e compraria mulheres mais caras.

Pedro não tinha atrativos físicos nem psíquicos; era feio e tímido. Conforme o trabalho ia aumentando, Pedro tinha menos paciência com mulheres. Há muito tempo Pedro casou-se, mas se separou, porque a mulher falava demais para seu gosto. Era um tititi sobre atenção, cumplicidade, diálogo, harmonia entre o casal, etc.

Suportou a mulher calado algum tempo. Judite era bonita, tinha espírito, era boa de cama e o amava. Descupe, leitor, na verdade Judite era boa de cama, bonita, tinha espírito e o amava.

"Mais trabalho, mais trabalho, e menos Judite" - falava ela, cada dia com mais agressividade.

Um dia Pedro chegou muito cansado do trabalho. E lá vem Judite:

"Mais trabalho, mais trabalho e menos Judite".

E Pedro, sempre tão calado, calmo, controlado e frio... Pedro, sempre tão frio, controlado, calmo e calado...De súbito! Revelou a face do Silêncio e berrou feito um leão. Faminto. Irracional .Cansado:

"Cala a boca, sua piranha!!" - Apenas isso, sem mais argumentos.

O Silêncio mandou a mulher calar a boca, e o Leão chamou-a de piranha, que no popular quer dizer mulher que transa com vários homens, mas neste caso, mulher que transa com vários leões.

Judite chorou e foi embora. Pedro, leão faminto, irracional e cansado, não corre atrás de Judite, e vai para a cama dormir tranquilo.

Voltando:

Engravatado, Pedro abre a garagem com o controle. Estava muito calor e Pedro ligou o ar. Fechou as inquebráveis e escuras janelas, protegidas contra assaltos, pedintes, aleijados e crianças, que o faziam abrir a carteira.

Ao sair da garagem e percorrer cada vez mais veloz o asfalto quente, foi notando que nenhum comércio estava aberto, e que ninguém estava na rua. Conferiu no ipad se era feriado, mas não era.

Convenceu-se a dirigir até a Empresa para ter certeza de que a cidade estava vazia. Enquanto isso abriu a janela do carro, e olhava para os dois lados da rua, procurando alguém, mas a neblina cinza de São Paulo impedia-o de enxergar bem. Se a Empresa estivesse fechada, então algo de errado estava acontecendo.

Pedro passava o dia inteiro na Empresa, e às vezes pernoitava. A Empresa de 42 anos funcionou 21 para Pedro. "Se funcionou tanto tempo, ainda há de funcionar por um bom tempo", pensou Pedro. Empresa era o lugar onde Pedro maissaa que existia alguém.

Chegando à empresa, viu-a vazia. Todos os papéis no mesmo lugar, na mesa de todos os funcionários. Estava tudo normal, só não havia pessoas.

Desceu de elevador até o térreo e andou rápido pela rua, rodopiando para se certificar que não havia ninguém. Confuso sentou-se em um banco de praça. Teve medo que fosse uma epidemia. Mas como? Se na noite seguinte, antes de dormir, tudo estava funcionado?

Sentado e cansado ele permaneceu confuso por umas duas horas, pensando incessantemente no que iria fazer.

Por fim, foi até a Empresa, sentou-se e trabalhou normalmente.

"Tudo ia voltar ao normal" - pensou Pedro.

"Sempre foi assim ∴ sempre será" - pensou ele, concluindo.

Trabalhou durante uma semana inteira, voltando para casa, dormindo, seguindo sua rotina. Até perceber que os funcionários não apareciam mais. Ninguém aparecia.

Pedro ∴ estava sozinho em São Paulo. Sem esperanças, tomou o elevador da Empresa até o térreo. Andou pela rua, e sentou-se no banco de uma praça.

Surpreendentemente, ou não, Pedro não estava com medo da solidão, mas estava com medo de não ter o que fazer, entrar em depressão e enlouquecer, como dizem os livros de auto-ajuda.

Resolveu então aproveitar o tempo para dormir na grama da praça. Porém pensou:

"Mas... E se tudo voltasse ao normal? De repente? A Empresa seguiria em frente e eu não acordaria a tempo de apresentar as planilhas aos empresários!".

Teve uma idéia: Foi até a lanchonete da Empresa, pulou o balcão e pegou um vidro de ketchup.Tirou o terno e guardou no carro, afinal, era um terno caro. Caminhou até a praça e passou ketchup na camisa com muita tristeza, afinal, a camisa também foi cara.

Concerteza se tudo voltasse ao normal, alguém acharia que ele estava morto, ligaria para a polícia, a polícia o saculejaria e ele acordaria.

Para ser mais dramático, Pedro espalhou ketchup pela grama, deitou-se no meio da sujeira. Para completar a "cena do crime" pôs sua carteira aberta ao lado do "corpo".

Curiosamente, ou não, Pedro tirou o dinheiro e os cartões de crédito da carteira, guardando-os na cueca velha e rasgada.

Após algum tempo, adormeveu.

Acordou às cinco horas da tarde. Havia dormido bem,apesar de toda aquela mudança radical. "Não durmo tão bem desde quando era atendente da empresa " - concluiu Pedro.

Bem descansado, levantou-se e percebeu que ainda não havia ninguém.

"É, parece que isso vai demorar muito" - pensou ele.

Tirou a camisa e a gravata, já que perdeu a esperança de a Empresa funcionar normalmente. Guardou a camisa e a gravata no carro.

Uma semana depois, sem esperança alguma de que algo voltasse a ser o que era, tirou o cinto e as calças, guardou as peças no carro e ficou só com a cueca rasgada.

Por incrível que pareça, Pedro estava feliz, pois tecnicamente estava de férias.

E que férias! Tão diferente das outras, sempre interrompidas pelo o barulho do celular. Afinal, pôr uma pessoa no cargo da presidencia enquanto ele estivesse fora era algo perigoso, por isso tinha que acompanhar tudo tim tim por tim tim. Mas não tinha Empresa que concorresse com a Empresa, simplesmente por estarem fora de funcionamento.

Descansado, andou de cueca pelas ruas vazias de São Paulo, até parar em um ponto de ônibus, seduzido por uma propaganda. O rosto de uma japonesa, fotografado bem de perto, ocupava todo o espaço do cartaz. A moça tinha olhos vivos, marrons, intensos. Tinha pele branca feito papel e um batom vermelho nos lábios. Embaixo o nome da marca e a cor específica do batom.

Lembrou que Judite sempre comprava essas "quinquilharias", que custavam uma nota. Mas pensando bem, Judite era linda quando acordava, apesar do pijama encardido e rasgado. Mas era irresistível quando se maquiava... Os traços suaves do rosto destacados com as "quinquilharias"... ∴ quinquilharias servem para algo, mesmo que este algo seja uma ereção.

Apesar de possuir uma bela mulher, Pedro contratava prostitutas, que falavam menos e faziam mais. Ao refetir, concluiu que por mais caras e bonitas que fossem as garotas que ele passou a contratar depois que o casamento começou a ruir, Judite foi a única mulher com quem ele fez amor. Mesmo que cada vez menos e menos...Depois que ingressou na Empresa.

Ficou com sono. Vinte e um anos mal dormidos pesavam naquele homem. Entrou em um prédio humilde, porque foi a primeira opção. As portas do primeiro andar estavam todas fechadas. Superando o sono, Pedro gritou para ver se atrás de uma delas havia alguém. Não havia.

No segundo andar, a segunda porta estava entreaberta. Pedro escancarou-a , sem esperanças de encontrar ninguém e deitou-se em uma cama. Dormiu.

Acordou às sete da manhã do dia seguinte, se sentindo muito bem. Olhou o relógio de pulso na cabeceira e certificou-se de que havia dormido por 12 horas. Com fome, foi até a cozinha e procurou algo pronto na despensa, já que não sabia cozinhar, nem fazer café.

Não encontrou nada "pronto" que pudesse comer, além de um pacote de biscoito cream craker. Paulo começou a pensar em waffle. Na verdade, Paulo pensou primeiro em waffle, e logo depois em Judite. Ela, sabendo que o marido acordaria e sairia correndo, sem ao menos cumprimentá-la, acordava cedo e preparava um waffle, enrolava em um papel toalha, depois em um saco plástico, para não sujar as planilhas de gordura. Eram tantas planilhas que a pobre maleta, antes de começar a cheirar a waffle, em dois meses era descartada, e trocada por uma maior.

Pedro sentiu pena de Judite. Foi sua mulher durante tantos anos e ele nunca nunca faria tal ato pela esposa. Pedro, presidente da Empresa, portanto homem inteligente, concluiu que Judite já não era esposa, pois não tinham relações sexuais e conversas decentes, pelo menos até São Paulo ser São Paulo.

Sem as planilhas para pensar, Pedro subitamente lembrou que as crises do casal pioraram assim que se tornou diretor geral e teve que dobrar sua carga horária, apesar de isto ser uma clara contradição: trabalhar para trabalhar mais.

"Vai bancar o Marx, otário?" - pensou Pedro, desviando o pensamento.

O tempo passou tão depressa...Estranhamente, para Pedro, os vinte e um anos de empresa foram como uma semana apenas. Lembra-se de acordar, ir para a Empresa. Lembra-se da persiana cinza da Empresa, da mesa branca da Empresa, de Sônia, secretária da Empresa , dos papeis, das letras digitadas nos papéis... Tudo tão rápido, que caberia em um único quadro...Em uma única moldura... Lembra-se de voltar para casa, lembra-se da frase "Mais trabalho, menos Judite", lembra-se de comer sozinho no sofá vendo T.V,lembra-se de ir para cama e encontrar Judite dormindo, com os cílios molhados.

"Mulheres são tão sentimentais!" - pensou Pedro.

Judite... Teria passado depressa para Judite? O homem da Empresa lembrou-se novamente dos cílios molhados e engoliu em seco o biscoito cream craker.

Tomou banho e testou algumas cuecas da gaveta até achar uma em que se sentisse confortável. Pensou em andar nu. Mas São Paulo continuava imunda, como sempre foi, portanto, preferiu proteger suas partes sensíveis e calçou um chinelo limpo.

Ao sair do velho prédio, com os polegares enfiados nas lateriais da cueca, como se fosse uma calça, andou despretensiosamente pelas ruas.

De repente, depara-se com uma figura distante. Era uma mulher. Sentindo vergonha de suas cuecas, Pedro se escondeu atrás de um banco. Mas ela o havia notado, e histérica gritou:

- Ei! Você! Fique onde está!!

Era uma jovem mulher, parecia beirar os trinta. Vestia uma camisa enorme para ela, que a tapava quase até os joelhos.

A jovem mulher, que não era bonita, começou a rir da cueca encardida e estampada de bolinhas amarelas. Pedro, vermelho de vergonha, coçou o pescoço expressando seu stress. De fato a roupa da mulher era menos ridícula que a sua.

Pedro pensou em correr, mas subitamente lembrou-se que precisava de respostas. Encabulado, levantou-se, ridículo, por detrás do banco de onde estava.

A jovem mulher, ao cessar o riso, mudou de expressão e perguntou:

-Que merda é essa que tá acontecendo?

- Eu não sei. - disse Pedro, que não falava merda ∴ homem educado.

- Merda... - disse ela, desapontada com a resposta.

- Concerteza as pessoas irão aparecer aos poucos. - disse Pedro.

- É - disse a mulher.

Ficaram em silêncio.

- Então você não sabe de nada? - disse a mulher objetiva, concluindo logo a conversa, com pressa de ir para algum lugar, achar alguma resposta, e dar seguimento à sua rotina. Assim como Pedro, que até então não esperava encontrar ninguém.

A mulher, sem agradecer e dizer adeus, partiu caminhando pelo asfalto.

Pedro sentou no banco confortavelmente. Com mais esperança de tudo voltar a normal. Afinal, cansou de descansar, e estava começando a ter os sintomas dos livros de auto - ajuda.

"Essas merdas são iguais, mas é tudo pura verdade" - pensou Pedro, que pensava merda, mas não falava. ∴ homem educado.

Distraído, mal percebeu que a jovem mulher estava se reaproximando. Parou próxima a Pedro, com os braços cruzados, o pé direito batendo tenso no asfalto.

-Fique por aqui. Dizem que quando ficamos sós acabamos enlouquecendo. - disse ele.

- Isso é bobagem, qualquer um têm condições de viver só. Eu vivi só por 28 anos.

-Quantos anos você têm? - perguntou Pedro.

-Vinte e oito. - respondeu.

- O que você quer dizer? Que você nunca deu? - disse Pedro rindo.

-O que é "dar" pra você?

- Ah, sei lá...Transar, fazer amor...

Pedro pensou em usar a palavra foder, mas era um homem educado da Empresa.

- A quanto tempo você não transa? - perguntou a jovem mulher

Pedro surpreeendeu-se com a pergunta.

- A algumas semanas, três dias antes da cidade mudar. - disse Pedro

-Você amava ela? - perguntou a jovem mulher

-Não. - respondeu Pedro, começando a ficar incomodado com a conversa.

- Então você não fez amor, você transou. - disse a jovem mulher.

- Você devia transar, parece muito estressada. - disse Pedro agressivo com a invasão da jovem mulher.

- Quero perder a virgindade com alguém que me ame. - disse a jovem mulher.

- Ninguém ama ninguém. Essa droga de amor é um monte de substâncias químicas...hormônios...Faz parte da natureza humana, é uma coisa animal. - disse Pedro, um pouco mais seguro.

- Você nunca amou ninguém? - disse a jovem mulher, com a voz comovida.

- Já. Mais como eu te disse, casamento é uma ilusão. Nem sei por que fui casado tanto tempo...A verdade é que...Nos acostumamos a uma pessoa e temos a esperança de que esta seja insubstituível. Essa palhaçada de amor é um delírio. Vai por mim: o cara vai dizer que te ama, vai transar com você e dependendo da maneira que você o atrair, vai transar com você dois, três anos e depois vocês começam a brigar e...Tudo acaba. Pelo menos um dia acaba.

- Você já se "acostumou" com alguém? - perguntou a capiciosa jovem mulher.

-Sim - respondeu Pedro desconcertado.

- Com quantas? - perguntou a jovem mulher.

- Uma só. - respondeu Pedro.

- Uma só... - disse a jovem mulher em tom de ironia.

- Isso têm explicação. - rebateu Pedro.

-Explique - disse a jovem mulher, desafiando-o.

-Trabalhei muito e por isso não tive tempo de conversar muito. Mulher fala demais, e eu fui perdendo a paciência...

- Então você é um daqueles caras que trabalham demais e que saem com prostitutas.

Pedro assustou-se com a astúcia da jovem mulher.

- Quem é você? - perguntou, instigado.

- Maria.

- Sou Pedro - disse ele, por convenção, pois era um homem da Empresa ∴mecânico.

- Eu sei quem você é. - disse a jovem mulher.

Pedro assustou-se

- Como assim? - perguntou ele.

- Essa cidade têm muitos Pedros. - respondeu Maria.

- Deve ter muitas Marias também. - respondeu Pedro, levemente irritado.

- "Haha". Se ferrou. Eu não sou de São Paulo, eu nasci em São Paulo.

- Você mora em outro lugar, então. - conclui Pedro, homem inteligente da Empresa.

- Não, sempre morei em São Paulo. - disse Maria.

- Não faz sentido. Onde você mora? - perguntou Pedro, curioso.

- Eu moro em uma parte de São Paulo que não é cinza. - respondeu Maria.

- Você mora no interior então. Veio parar no centro porque achou que haveria maior possibilidade de achar alguém. - conclui Pedro, homem inteligente da Empresa.

- Não. Eu moro a duas quadras daqui. - respondeu Maria.

Pedro, instigado e sem nada para fazer, disse :

- Me leve até lá então.

-Ok. - respondeu Maria.

Caminharam enquanto conversavam.

- Você é muito pálida e tem olheiras. - disse Pedro

- Você também. - disse Maria

- Mas eu sou velho. Trabalhei muito. - disse Pedro, justificando-se.

- Eu nunca trabalhei.

- Talvez precise trabalhar. - disse Pedro irritado

-Talvez você precise parar de trabalhar...Chegamos - disse Maria.

Pedro olhou para uma espécie de condomínio com quatro prédios. Era um sanatório.

- É um sanatório. Você é maluca.

Pedro deu um longo suspiro de aborrecimento.

- Você quer entrar? - perguntou Maria.

Os dois entraram pelos portões brancos que davam para o pátio do "condomínio".

-Sanatórios não costumam ser trancados? - perguntou Pedro

- Acho que sim - respondeu Maria, despreocupada.

Atravessaram o pátio em silêncio até chegarem a uma rampa que dava para o primeiro andar de um dos prédios. Era branco, como em qualquer sanatório.

- Viu, não disse? É a única parte de São Paulo que não é cinza! - disse Maria sorrindo.

Pedro riu, o que tirou um pouco do aborrecimento .

- O que você tem? - perguntou Pedro

- O que eu não tenho, você quer dizer. - respondeu Maria.

Pedro riu, mas Maria permaneceu séria.

- Não estou brincando. - disse ela

- Ok então,o que você não tem? - disse Pedro, divertindo-se.

- Não lembro muito bem, tenho que procurar minha ficha. - disse Maria, subindo por cima de um balcão, onde provavelmente era a enfermaria.

Pedro gargalhou.

-Você é um otário. - disse ela.

- Têm razão - disse Pedro rindo ainda mais.

Maria abre um ficheiro. Depois de alguns poucos minutos de procura, puxa uma ficha. -

- Achei! Santos Geordani, Maria. - disse Maria entusiasmada.

- Vamos ver... Está mal escrito, vou ter que traduzir - disse ela, dando um suspiro de cansaço.

- Diga - disse Pedro, divertindo-se

- "Sem ambição, gosta de viver, chora por amor, vive em um mundo errado e por isso decepcionou-se com o destino."

-Deixe-me ver - disse Pedro puxando a ficha da mão de Maria.

- "Alienada, sem disciplina, depressiva, anti-social, suicida." - leu Pedro em voz alta. E completou, olhando para Maria:

- Não é o que está escrito. Você só ficou... sei lá... triste, traumatizada por alguma coisa e sua serotonina diminuiu. - conclui Pedro.

- Eles injetam coisas em mim, deve ser serotonina... - disse Maria.

- A quanto tempo está aqui? - perguntou Pedro.

- A treze anos. - respondeu Maria

-Como assim, treze anos? - perguntou Pedro, surpreso.

- Entrei com quinze, estou com vinte e oito. - disse Maria

-Sério? - perguntou Pedro, surpreso.

-Sim. - respondeu Maria

- E qual foi o estopim para sua vida virar essa tragédia - perguntou Pedro, sarcástico.

- É uma longa história. Estopins não explicam nada. - disse Maria

-Ok. Comece do começo.

- Me puseram na escola aos cinco, mas eu não gostava estudar. Fugia para o pátio e ficava procurando por formigas, lacraias, gostava de desenhar coisas...Desenhei várias partes da escola em um só dia. - disse Maria.

-E? - perguntou Pedro.

- A professora gritava comigo e eu ficava triste, achava que eu era uma pessoa ruim. Os alunos me zoavam, o pessoal maior me batia sem eu fazer nada...Foi aos cinco que comecei a chorar e só quando eu entrei aqui comecei a parar. Na verdade até hoje não consegui parar.

- Deve ser por isso que você não transa, você vive triste. - disse Pedro, leão.

- Foi a única coisa sensata que você já me disse, Pedro - disse Maria.

Pedro riu.

- Passei tanto tempo triste que não consigo mais ser feliz. Mas estou cada dia menos triste. - completou Maria.

-E porque você acha que está cada dia menos triste? - perguntou Pedro








Magnólia é uma cantora, compositora, poetisa e escritora brasileira.



quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Poesias De Magnólia


O Teatro da Paixão de Cristo


O Dono de tudo o que restou
Parece não se importar em gastar
O que ainda resta


Que péssimo ator!
Para intensificar a cena
Me prendeu na cruz
"Agora sim, és convincente"


Ao fugir do Teatro
O encontro de supetão
Ele me arrasta de volta
"Tens contas a pagar"

No alicerce do Teatro

Nova cruz se ergue
Como pude imaginar
Que Deus era marceneiro?

E o ímpeto
Não tem força de lei
A lei que bate o martelo
Do último suspiro


"Pai, porque não me abandonas-te?"




Magnólia é uma cantora, compositora, poetisa e escritora brasileira.