domingo, 14 de outubro de 2012

Folhetim

O Homem Que Acordou em São Paulo - Parte I


Às sete horas da manhã, o despertador toca. Pedro levanta-se, toma banho, penteia o cabelo, passa gel e põe uma cueca velha e rasgada, apesar de muito confortável. Depois põe a calça social, o cinto social, a camisa social e o terno social, artigos socialmente caros. Se olha no espelho e sente orgulho de si, pois trabalha na Empresa.

Pedro passou 21 anos na empresa. Começou como atendente, depois atendente-geral, depois gerente, depois gerente -geral, depois diretor, depois diretor geral, e por fim, lá no espelho se encontrava o presidente de Empresa.

Cansado, velho, e com olheiras. Mas isso eram apenas detalhes.

Desceu até a garagem, entrou no carro, e como sabia do trânsito de São Paulo, trouxe umas planilhas no colo, enquanto as lia, esperava o engarrafamento ceder. Eram importantes as planilhas, pois se bem estudadas trariam dinheiro para Empresa, e também para Pedro. Com o dinheiro compararia ternos caros, um carro mais caro e compraria mulheres mais caras.

Pedro não tinha atrativos físicos nem psíquicos; era feio e tímido. Conforme o trabalho ia aumentando, Pedro tinha menos paciência com mulheres. Há muito tempo Pedro casou-se, mas se separou, porque a mulher falava demais para seu gosto. Era um tititi sobre atenção, cumplicidade, diálogo, harmonia entre o casal, etc.

Suportou a mulher calado algum tempo. Judite era bonita, tinha espírito, era boa de cama e o amava. Descupe, leitor, na verdade Judite era boa de cama, bonita, tinha espírito e o amava.

"Mais trabalho, mais trabalho, e menos Judite" - falava ela, cada dia com mais agressividade.

Um dia Pedro chegou muito cansado do trabalho. E lá vem Judite:

"Mais trabalho, mais trabalho e menos Judite".

E Pedro, sempre tão calado, calmo, controlado e frio... Pedro, sempre tão frio, controlado, calmo e calado...De súbito! Revelou a face do Silêncio e berrou feito um leão. Faminto. Irracional .Cansado:

"Cala a boca, sua piranha!!" - Apenas isso, sem mais argumentos.

O Silêncio mandou a mulher calar a boca, e o Leão chamou-a de piranha, que no popular quer dizer mulher que transa com vários homens, mas neste caso, mulher que transa com vários leões.

Judite chorou e foi embora. Pedro, leão faminto, irracional e cansado, não corre atrás de Judite, e vai para a cama dormir tranquilo.

Voltando:

Engravatado, Pedro abre a garagem com o controle. Estava muito calor e Pedro ligou o ar. Fechou as inquebráveis e escuras janelas, protegidas contra assaltos, pedintes, aleijados e crianças, que o faziam abrir a carteira.

Ao sair da garagem e percorrer cada vez mais veloz o asfalto quente, foi notando que nenhum comércio estava aberto, e que ninguém estava na rua. Conferiu no ipad se era feriado, mas não era.

Convenceu-se a dirigir até a Empresa para ter certeza de que a cidade estava vazia. Enquanto isso abriu a janela do carro, e olhava para os dois lados da rua, procurando alguém, mas a neblina cinza de São Paulo impedia-o de enxergar bem. Se a Empresa estivesse fechada, então algo de errado estava acontecendo.

Pedro passava o dia inteiro na Empresa, e às vezes pernoitava. A Empresa de 42 anos funcionou 21 para Pedro. "Se funcionou tanto tempo, ainda há de funcionar por um bom tempo", pensou Pedro. Empresa era o lugar onde Pedro maissaa que existia alguém.

Chegando à empresa, viu-a vazia. Todos os papéis no mesmo lugar, na mesa de todos os funcionários. Estava tudo normal, só não havia pessoas.

Desceu de elevador até o térreo e andou rápido pela rua, rodopiando para se certificar que não havia ninguém. Confuso sentou-se em um banco de praça. Teve medo que fosse uma epidemia. Mas como? Se na noite seguinte, antes de dormir, tudo estava funcionado?

Sentado e cansado ele permaneceu confuso por umas duas horas, pensando incessantemente no que iria fazer.

Por fim, foi até a Empresa, sentou-se e trabalhou normalmente.

"Tudo ia voltar ao normal" - pensou Pedro.

"Sempre foi assim ∴ sempre será" - pensou ele, concluindo.

Trabalhou durante uma semana inteira, voltando para casa, dormindo, seguindo sua rotina. Até perceber que os funcionários não apareciam mais. Ninguém aparecia.

Pedro ∴ estava sozinho em São Paulo. Sem esperanças, tomou o elevador da Empresa até o térreo. Andou pela rua, e sentou-se no banco de uma praça.

Surpreendentemente, ou não, Pedro não estava com medo da solidão, mas estava com medo de não ter o que fazer, entrar em depressão e enlouquecer, como dizem os livros de auto-ajuda.

Resolveu então aproveitar o tempo para dormir na grama da praça. Porém pensou:

"Mas... E se tudo voltasse ao normal? De repente? A Empresa seguiria em frente e eu não acordaria a tempo de apresentar as planilhas aos empresários!".

Teve uma idéia: Foi até a lanchonete da Empresa, pulou o balcão e pegou um vidro de ketchup.Tirou o terno e guardou no carro, afinal, era um terno caro. Caminhou até a praça e passou ketchup na camisa com muita tristeza, afinal, a camisa também foi cara.

Concerteza se tudo voltasse ao normal, alguém acharia que ele estava morto, ligaria para a polícia, a polícia o saculejaria e ele acordaria.

Para ser mais dramático, Pedro espalhou ketchup pela grama, deitou-se no meio da sujeira. Para completar a "cena do crime" pôs sua carteira aberta ao lado do "corpo".

Curiosamente, ou não, Pedro tirou o dinheiro e os cartões de crédito da carteira, guardando-os na cueca velha e rasgada.

Após algum tempo, adormeveu.

Acordou às cinco horas da tarde. Havia dormido bem,apesar de toda aquela mudança radical. "Não durmo tão bem desde quando era atendente da empresa " - concluiu Pedro.

Bem descansado, levantou-se e percebeu que ainda não havia ninguém.

"É, parece que isso vai demorar muito" - pensou ele.

Tirou a camisa e a gravata, já que perdeu a esperança de a Empresa funcionar normalmente. Guardou a camisa e a gravata no carro.

Uma semana depois, sem esperança alguma de que algo voltasse a ser o que era, tirou o cinto e as calças, guardou as peças no carro e ficou só com a cueca rasgada.

Por incrível que pareça, Pedro estava feliz, pois tecnicamente estava de férias.

E que férias! Tão diferente das outras, sempre interrompidas pelo o barulho do celular. Afinal, pôr uma pessoa no cargo da presidencia enquanto ele estivesse fora era algo perigoso, por isso tinha que acompanhar tudo tim tim por tim tim. Mas não tinha Empresa que concorresse com a Empresa, simplesmente por estarem fora de funcionamento.

Descansado, andou de cueca pelas ruas vazias de São Paulo, até parar em um ponto de ônibus, seduzido por uma propaganda. O rosto de uma japonesa, fotografado bem de perto, ocupava todo o espaço do cartaz. A moça tinha olhos vivos, marrons, intensos. Tinha pele branca feito papel e um batom vermelho nos lábios. Embaixo o nome da marca e a cor específica do batom.

Lembrou que Judite sempre comprava essas "quinquilharias", que custavam uma nota. Mas pensando bem, Judite era linda quando acordava, apesar do pijama encardido e rasgado. Mas era irresistível quando se maquiava... Os traços suaves do rosto destacados com as "quinquilharias"... ∴ quinquilharias servem para algo, mesmo que este algo seja uma ereção.

Apesar de possuir uma bela mulher, Pedro contratava prostitutas, que falavam menos e faziam mais. Ao refetir, concluiu que por mais caras e bonitas que fossem as garotas que ele passou a contratar depois que o casamento começou a ruir, Judite foi a única mulher com quem ele fez amor. Mesmo que cada vez menos e menos...Depois que ingressou na Empresa.

Ficou com sono. Vinte e um anos mal dormidos pesavam naquele homem. Entrou em um prédio humilde, porque foi a primeira opção. As portas do primeiro andar estavam todas fechadas. Superando o sono, Pedro gritou para ver se atrás de uma delas havia alguém. Não havia.

No segundo andar, a segunda porta estava entreaberta. Pedro escancarou-a , sem esperanças de encontrar ninguém e deitou-se em uma cama. Dormiu.

Acordou às sete da manhã do dia seguinte, se sentindo muito bem. Olhou o relógio de pulso na cabeceira e certificou-se de que havia dormido por 12 horas. Com fome, foi até a cozinha e procurou algo pronto na despensa, já que não sabia cozinhar, nem fazer café.

Não encontrou nada "pronto" que pudesse comer, além de um pacote de biscoito cream craker. Paulo começou a pensar em waffle. Na verdade, Paulo pensou primeiro em waffle, e logo depois em Judite. Ela, sabendo que o marido acordaria e sairia correndo, sem ao menos cumprimentá-la, acordava cedo e preparava um waffle, enrolava em um papel toalha, depois em um saco plástico, para não sujar as planilhas de gordura. Eram tantas planilhas que a pobre maleta, antes de começar a cheirar a waffle, em dois meses era descartada, e trocada por uma maior.

Pedro sentiu pena de Judite. Foi sua mulher durante tantos anos e ele nunca nunca faria tal ato pela esposa. Pedro, presidente da Empresa, portanto homem inteligente, concluiu que Judite já não era esposa, pois não tinham relações sexuais e conversas decentes, pelo menos até São Paulo ser São Paulo.

Sem as planilhas para pensar, Pedro subitamente lembrou que as crises do casal pioraram assim que se tornou diretor geral e teve que dobrar sua carga horária, apesar de isto ser uma clara contradição: trabalhar para trabalhar mais.

"Vai bancar o Marx, otário?" - pensou Pedro, desviando o pensamento.

O tempo passou tão depressa...Estranhamente, para Pedro, os vinte e um anos de empresa foram como uma semana apenas. Lembra-se de acordar, ir para a Empresa. Lembra-se da persiana cinza da Empresa, da mesa branca da Empresa, de Sônia, secretária da Empresa , dos papeis, das letras digitadas nos papéis... Tudo tão rápido, que caberia em um único quadro...Em uma única moldura... Lembra-se de voltar para casa, lembra-se da frase "Mais trabalho, menos Judite", lembra-se de comer sozinho no sofá vendo T.V,lembra-se de ir para cama e encontrar Judite dormindo, com os cílios molhados.

"Mulheres são tão sentimentais!" - pensou Pedro.

Judite... Teria passado depressa para Judite? O homem da Empresa lembrou-se novamente dos cílios molhados e engoliu em seco o biscoito cream craker.

Tomou banho e testou algumas cuecas da gaveta até achar uma em que se sentisse confortável. Pensou em andar nu. Mas São Paulo continuava imunda, como sempre foi, portanto, preferiu proteger suas partes sensíveis e calçou um chinelo limpo.

Ao sair do velho prédio, com os polegares enfiados nas lateriais da cueca, como se fosse uma calça, andou despretensiosamente pelas ruas.

De repente, depara-se com uma figura distante. Era uma mulher. Sentindo vergonha de suas cuecas, Pedro se escondeu atrás de um banco. Mas ela o havia notado, e histérica gritou:

- Ei! Você! Fique onde está!!

Era uma jovem mulher, parecia beirar os trinta. Vestia uma camisa enorme para ela, que a tapava quase até os joelhos.

A jovem mulher, que não era bonita, começou a rir da cueca encardida e estampada de bolinhas amarelas. Pedro, vermelho de vergonha, coçou o pescoço expressando seu stress. De fato a roupa da mulher era menos ridícula que a sua.

Pedro pensou em correr, mas subitamente lembrou-se que precisava de respostas. Encabulado, levantou-se, ridículo, por detrás do banco de onde estava.

A jovem mulher, ao cessar o riso, mudou de expressão e perguntou:

-Que merda é essa que tá acontecendo?

- Eu não sei. - disse Pedro, que não falava merda ∴ homem educado.

- Merda... - disse ela, desapontada com a resposta.

- Concerteza as pessoas irão aparecer aos poucos. - disse Pedro.

- É - disse a mulher.

Ficaram em silêncio.

- Então você não sabe de nada? - disse a mulher objetiva, concluindo logo a conversa, com pressa de ir para algum lugar, achar alguma resposta, e dar seguimento à sua rotina. Assim como Pedro, que até então não esperava encontrar ninguém.

A mulher, sem agradecer e dizer adeus, partiu caminhando pelo asfalto.

Pedro sentou no banco confortavelmente. Com mais esperança de tudo voltar a normal. Afinal, cansou de descansar, e estava começando a ter os sintomas dos livros de auto - ajuda.

"Essas merdas são iguais, mas é tudo pura verdade" - pensou Pedro, que pensava merda, mas não falava. ∴ homem educado.

Distraído, mal percebeu que a jovem mulher estava se reaproximando. Parou próxima a Pedro, com os braços cruzados, o pé direito batendo tenso no asfalto.

-Fique por aqui. Dizem que quando ficamos sós acabamos enlouquecendo. - disse ele.

- Isso é bobagem, qualquer um têm condições de viver só. Eu vivi só por 28 anos.

-Quantos anos você têm? - perguntou Pedro.

-Vinte e oito. - respondeu.

- O que você quer dizer? Que você nunca deu? - disse Pedro rindo.

-O que é "dar" pra você?

- Ah, sei lá...Transar, fazer amor...

Pedro pensou em usar a palavra foder, mas era um homem educado da Empresa.

- A quanto tempo você não transa? - perguntou a jovem mulher

Pedro surpreeendeu-se com a pergunta.

- A algumas semanas, três dias antes da cidade mudar. - disse Pedro

-Você amava ela? - perguntou a jovem mulher

-Não. - respondeu Pedro, começando a ficar incomodado com a conversa.

- Então você não fez amor, você transou. - disse a jovem mulher.

- Você devia transar, parece muito estressada. - disse Pedro agressivo com a invasão da jovem mulher.

- Quero perder a virgindade com alguém que me ame. - disse a jovem mulher.

- Ninguém ama ninguém. Essa droga de amor é um monte de substâncias químicas...hormônios...Faz parte da natureza humana, é uma coisa animal. - disse Pedro, um pouco mais seguro.

- Você nunca amou ninguém? - disse a jovem mulher, com a voz comovida.

- Já. Mais como eu te disse, casamento é uma ilusão. Nem sei por que fui casado tanto tempo...A verdade é que...Nos acostumamos a uma pessoa e temos a esperança de que esta seja insubstituível. Essa palhaçada de amor é um delírio. Vai por mim: o cara vai dizer que te ama, vai transar com você e dependendo da maneira que você o atrair, vai transar com você dois, três anos e depois vocês começam a brigar e...Tudo acaba. Pelo menos um dia acaba.

- Você já se "acostumou" com alguém? - perguntou a capiciosa jovem mulher.

-Sim - respondeu Pedro desconcertado.

- Com quantas? - perguntou a jovem mulher.

- Uma só. - respondeu Pedro.

- Uma só... - disse a jovem mulher em tom de ironia.

- Isso têm explicação. - rebateu Pedro.

-Explique - disse a jovem mulher, desafiando-o.

-Trabalhei muito e por isso não tive tempo de conversar muito. Mulher fala demais, e eu fui perdendo a paciência...

- Então você é um daqueles caras que trabalham demais e que saem com prostitutas.

Pedro assustou-se com a astúcia da jovem mulher.

- Quem é você? - perguntou, instigado.

- Maria.

- Sou Pedro - disse ele, por convenção, pois era um homem da Empresa ∴mecânico.

- Eu sei quem você é. - disse a jovem mulher.

Pedro assustou-se

- Como assim? - perguntou ele.

- Essa cidade têm muitos Pedros. - respondeu Maria.

- Deve ter muitas Marias também. - respondeu Pedro, levemente irritado.

- "Haha". Se ferrou. Eu não sou de São Paulo, eu nasci em São Paulo.

- Você mora em outro lugar, então. - conclui Pedro, homem inteligente da Empresa.

- Não, sempre morei em São Paulo. - disse Maria.

- Não faz sentido. Onde você mora? - perguntou Pedro, curioso.

- Eu moro em uma parte de São Paulo que não é cinza. - respondeu Maria.

- Você mora no interior então. Veio parar no centro porque achou que haveria maior possibilidade de achar alguém. - conclui Pedro, homem inteligente da Empresa.

- Não. Eu moro a duas quadras daqui. - respondeu Maria.

Pedro, instigado e sem nada para fazer, disse :

- Me leve até lá então.

-Ok. - respondeu Maria.

Caminharam enquanto conversavam.

- Você é muito pálida e tem olheiras. - disse Pedro

- Você também. - disse Maria

- Mas eu sou velho. Trabalhei muito. - disse Pedro, justificando-se.

- Eu nunca trabalhei.

- Talvez precise trabalhar. - disse Pedro irritado

-Talvez você precise parar de trabalhar...Chegamos - disse Maria.

Pedro olhou para uma espécie de condomínio com quatro prédios. Era um sanatório.

- É um sanatório. Você é maluca.

Pedro deu um longo suspiro de aborrecimento.

- Você quer entrar? - perguntou Maria.

Os dois entraram pelos portões brancos que davam para o pátio do "condomínio".

-Sanatórios não costumam ser trancados? - perguntou Pedro

- Acho que sim - respondeu Maria, despreocupada.

Atravessaram o pátio em silêncio até chegarem a uma rampa que dava para o primeiro andar de um dos prédios. Era branco, como em qualquer sanatório.

- Viu, não disse? É a única parte de São Paulo que não é cinza! - disse Maria sorrindo.

Pedro riu, o que tirou um pouco do aborrecimento .

- O que você tem? - perguntou Pedro

- O que eu não tenho, você quer dizer. - respondeu Maria.

Pedro riu, mas Maria permaneceu séria.

- Não estou brincando. - disse ela

- Ok então,o que você não tem? - disse Pedro, divertindo-se.

- Não lembro muito bem, tenho que procurar minha ficha. - disse Maria, subindo por cima de um balcão, onde provavelmente era a enfermaria.

Pedro gargalhou.

-Você é um otário. - disse ela.

- Têm razão - disse Pedro rindo ainda mais.

Maria abre um ficheiro. Depois de alguns poucos minutos de procura, puxa uma ficha. -

- Achei! Santos Geordani, Maria. - disse Maria entusiasmada.

- Vamos ver... Está mal escrito, vou ter que traduzir - disse ela, dando um suspiro de cansaço.

- Diga - disse Pedro, divertindo-se

- "Sem ambição, gosta de viver, chora por amor, vive em um mundo errado e por isso decepcionou-se com o destino."

-Deixe-me ver - disse Pedro puxando a ficha da mão de Maria.

- "Alienada, sem disciplina, depressiva, anti-social, suicida." - leu Pedro em voz alta. E completou, olhando para Maria:

- Não é o que está escrito. Você só ficou... sei lá... triste, traumatizada por alguma coisa e sua serotonina diminuiu. - conclui Pedro.

- Eles injetam coisas em mim, deve ser serotonina... - disse Maria.

- A quanto tempo está aqui? - perguntou Pedro.

- A treze anos. - respondeu Maria

-Como assim, treze anos? - perguntou Pedro, surpreso.

- Entrei com quinze, estou com vinte e oito. - disse Maria

-Sério? - perguntou Pedro, surpreso.

-Sim. - respondeu Maria

- E qual foi o estopim para sua vida virar essa tragédia - perguntou Pedro, sarcástico.

- É uma longa história. Estopins não explicam nada. - disse Maria

-Ok. Comece do começo.

- Me puseram na escola aos cinco, mas eu não gostava estudar. Fugia para o pátio e ficava procurando por formigas, lacraias, gostava de desenhar coisas...Desenhei várias partes da escola em um só dia. - disse Maria.

-E? - perguntou Pedro.

- A professora gritava comigo e eu ficava triste, achava que eu era uma pessoa ruim. Os alunos me zoavam, o pessoal maior me batia sem eu fazer nada...Foi aos cinco que comecei a chorar e só quando eu entrei aqui comecei a parar. Na verdade até hoje não consegui parar.

- Deve ser por isso que você não transa, você vive triste. - disse Pedro, leão.

- Foi a única coisa sensata que você já me disse, Pedro - disse Maria.

Pedro riu.

- Passei tanto tempo triste que não consigo mais ser feliz. Mas estou cada dia menos triste. - completou Maria.

-E porque você acha que está cada dia menos triste? - perguntou Pedro








Magnólia é uma cantora, compositora, poetisa e escritora brasileira.



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