

Quadro I - Mark Rothko
Quadro II - Anônimo
Reflexões Sobre Arte e Cultura
Observe os dois quadros acima.
Qual, em sua opinião, seria artisticamente superior?
Quem respondeu o de Mark Rothko errou, ou melhor, acertou em parte.
Seria prepotente da minha parte afirmar isso sem uma longa explicação, por isso, para desfazer essa má imprenssão, leia o resto do texto e reflita.
Os dois quadros são arte de equivalente qualidade.
Segundo o senso comum, a boa arte basicamente seria a criatividade em expressar algo, uma idéia ou uma sensação.
O mesmo ocorre com a Música, um dos ramos da arte, onde letra e melodia devem estar, ou pelo menos deveriam estar a favor da ideia, de algo ou de uma sensação.
Mesmo os poetas dadaístas queriam gerar reflexão com seus poemas ilógicos. Qual? A própria fuga da logicidade como alternativa de vida.
Segundo este conceito, Mark Rothko ganharia a disputa. Mas eu os convido a refletir:
E se a idéia do pintor anônimo ao retratar fielmente a paisagem dissese algo a mais?
Isso nos leva a refletir sobre o porque dele escolher tal paisagem e dedicar horas a reproduzi-la.
De fato, se ele simplesmente roda-se em torno de si mesmo, veria pelo menos mais quatro paisagens diferentes, e se dessse alguns passos, esse número cresceria exponencialmente.
Peço-lhe agora, caro leitor, que se dispa de qualquer conceito artístico e logo após sentir-se preparado, suba com o mouse para o início da página.
Fite o quadro do pintor anômino, e tente explicar para si mesmo, conotativamente, o que ele representa à você. Em linguagem simples; o que você sente e pensa ao vê-lo, incluindo desde reflexões sobre o significado da obra até sensações psiquicas e físicas.
Você sentiu algo?
Se não sentiu, largue a leitura e perdoe-me o incomodo causado.
Se sentiu, garanto-lhe que valerá a pena continuar.
A arte, quando compartilhada, é um ritual de doação e fraternidade.
Metaforicamente, é uma forma de transmitir emoções fortes, para que elas não entupam o coração de artista. Para que elas não o faça morrer de dor ou de alegria.
Que adolescente nunca se sentiu melhor ao escrever aquele poema deprimido no diário após terminar com o namorado?
Que músico nunca se sentiu melhor ao expor sua dor ou alegria numa composição?
Quando o anômimo reproduziu fielmente a paisagem, ele sentiu. Seja pela beleza, imprenssões, significado ou memórias pessoais...
Aquilo causou nele emoções fortes, e como todo artista, ele quiz dividir com você.
Talvez ele não tenha distorcido a realidade como Mark Rothko. Talvez o significado da obra não seja universal, mas isso não a tornou menos capaz de transmitir reflexões e emoções únicas.
Ao pintar algo, pôr em uma moldura destacada, e finalmente posicionar no centro de uma parede nada mais é que uma forma de fazer você olhar automaticamente com reflexão. Um quadro sem moldura e no chão obviamente é mais difícil de ser percebido e quem passar dificilmente o fitará com olhos atenciosos e reflexivos.
Não precisa estar em uma galeria e custar milhões de dólares.
Morei com minha mãe a vida toda, e ela sempre cozinhou para mim. Nunca valorizei a culinária, muito menos programas de culinária. Achava futilidade, algo sem muita importância e ao invés de cozinhar ou assistir à Ana Maria Braga, eu estudei tudo o que via pela frente a fim de construir colunas que sustentassem meu senso crítico. Busquei constantemente formas de entender o universo e as pessoas, e isso para mim, era mais importante que cozinhar.
No final do ano, provavelmente terei que morar sozinha. Minha mãe não vai estar lá e eu não sei cozinhar. De certo, em um mês antes de ir para outro lugar irei aprender a cozinhar coisas básicas, mas nunca terei a destreza de minha mãe e nunca combinarei com tanta competência os temperos. O mais próximo que chegarei é comprar aquelas lasanhas congeladas que nunca cozinham por completo no microondas e que se você puxar a massa ela não cede, que nem um plástico.O que irei fazer? Comprar um vidro de Ketchup e passar em um saboroso e suculento livro de Foucault?
A comida da minha mãe era gostosa, e portanto me fazia saudável e feliz. Talvez se eu não estivesse em tais condições não teria todo esse ânimo de entender o universo.
Estou exagerando? OK.
Inclua nisso as roupas que a minha mãe lavava e que eu terei que passar a lavar em vez de ler a tal Foucault do Ketchup. Inclua a segurança de se sentir amado. Inclua ter alguém com quem chorar. Inclua ser acordado e receber um abraço de manhã.
É arte.
Cozinhar é uma arte. Isso porque eu reconheço pelo paladar a diferença da comida da minha tia e da minha mãe. Minha tia é uma cozinheira excêntrica, e inventa receitas com temperos exóticos. Minha mãe é mais tradicional, e cozinha tão deliciosamente quanto a minha tia.
Amar é arte.
Eu, com tantos livros, já quase não sei o que é passar horas fazendo carinho na cabeça de mamãe enquanto ela vê televisão, como eu fazia quando era menor e não tinha tantas responsabilidades.
Foucault é arte filosófica.
Mark Rothko é arte plástica.
Chorar é arte de limpar a alma.
Nunca ache-se superior por saber falar sete línguas, por ser Phd, por tirar a melhor nota da sala e nem ache que por ser magro e bonito você já venceu na vida. Por fim, não tenha preconceito ao distinguir um Mark Rothko de um anônimo.
Se você abrir os olhos para o que esta ao seu redor, saberá que ainda tem muito a aprender.
Magnólia é uma cantora, compositora, poetisa e escritora brasileira.
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