"Em raros momentos, quando uma delicada paz acariciava-lhe o coração, ouvia o barulho de passos, intimamente ritmados aos seus. Não olhava ao redor, já sabendo que veria a mesma imagem ; inítida e desfocada. Uma fotografia surrada pelo tempo...
O tempo, objeto de ódio, revelava-se cada vez mais hostil. Seus dias de calendário macabro eram agulhas rasgando-lhe a alma a cada vinte e quatro horas. Caso a alma resistisse e se prendesse a alguma memória inacabada, o tempo a prendia em uma masmorra onde os dias nunca passam, fazendo a memória desfarelar diante dos olhos.
Chegava um ponto em que clamava por socorro, ajoelhava-se aos pés do carcereiro: o tempo. Ele, com a frieza de um nazista, arrastava a alma esgotada e quase inexistente. Jogava-a em uma câmara e imprimia-lhe em seu antigo cadáver, para que ele mesmo, o tempo, pudesse torturá-la dia a dia.
A alma defasada invade as entranhas do corpo como um vírus lutando por sobrevivência, fraca demais para pensar por si própria. Com seus ínfimos recursos, incentiva o corpo à luta pelo essencial, pelo natural; um ópio de prazer. A partir daí, vira um semi-cadáver.
Chegou o dia em que ela chamou o carcereiro, antes que toda a imagem sumisse diante dos olhos, e por fim entregou-se ao tempo. A alma miúda, incapaz de trazer-lhe lágrimas aos olhos, observou toda a devastação posterior."
(Trecho do livro "A Forma do Meu Coração" - Capitulo 4 - "O Homem Chamado Pedro" - em construção)
Magnólia é uma cantora,
compositora, poetisa e escritora brasileira.
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