Quando eu tinha dezessete anos, cursava o último ano do colegial. Estava muito gorda na época, com quase cem quilos, e como estava me recuperando de uma depressão, minha aparência estava muito afetada. Minha professora de Inglês, criou um projeto, onde os alunos da classe iriam a uma comunidade carente, onde levaríamos alguns presentes para as crianças de lá, e brincaríamos com elas. Cada aluno ficaria responsável em trazer felicidade para uma criança, durante uma tarde. Isso incluiria ler estorinhas, brincar de pique, de jogar bola, etc.
Então alugamos um ônibus e fomos ao lugar, que se chamava Prosperidade. Quando chegamos, todas as criancinhas nos esperavam em uma quadra de esportes. Todos arrumadinhos, de banho tomado e com o cabelo penteado. A escolha de qual aluno ficaria com determinada criança foi feita com antecedência, através de sorteio. Logo cada criança foi apresentada ao seu respectivo aluno. Eu havia sorteado uma menininha, de oito anos, morena e do cabelo comprido.
Eu, como boa palhaça, já comecei a fazer ela rir, como faço com a maioria das pessoas que quero cativar. Dei a ela um jogo de moveis rosa de plástico que havia comprado pra ela, o que a deixou muito feliz, então a menininha perguntou se eu queria brincar de casinha. Eu aceitei prontamente. Nós sentamos no chão e brincamos.Depois eu perguntei se ela queria ouvir alguma estória. Disse que sim. Aí eu peguei um livro de contos de fadas que tinha ganhado no meu aniversário de oito anos, do meu primo, uma das pessoas que eu mais adorava, e que hoje, infelizmente não conversa mais comigo. Escolhi a estória de Chapeuzinho Vermelho, depois a da Menina dos Fósforos, depois uma muito estranha sobre uma fábrica de ouro.
Só que ela parecia não ter gostado muito, porque o vocabulário era difícil até para mim. Aí, peguei alguns livros emprestado da escola e comecei a ler. Ela adorou. No meio da leitura ela olhou no fundo dos meus olhos e disse: “ Sabia que você é muito bonita?”. Eu, sem jeito, respondi : “Eu sou horrível’’. Isso porque não sei reagir quando alguém é gentil comigo. “Não, você é linda” - insistiu a menininha.
Foi uma das experiências mais extraordinárias da minha vida. Era como se menina, mesmo com olhos humanos, tivesse enxergado através de várias camadas de mim, e alcançado uma espécie de cristal, no fundo do meu ser, que a muito tempo eu havia esquecido que existia.
Ela havia olhado através da minha gordura, e depois de todo o sofrimento que havia me feito esquecer que no fundo, bem lá naquele cristal, eu ainda era criança, eu ainda era feliz. O cristal que concentrou durante anos, toda a beleza, que eu achava que tinha perdido, todos os sorrisos, que eu achava que não tinha mais condições de dar.
Ele não quebrou, continuou lá, intacto, esperando um anjo me dizer, que apesar de tudo, eu era uma boa menina, e que por isso eu merecia viver. Dizer que eu era uma boa menina, e que por isso, e somente por isso, eu poderia ser feliz apesar de tudo. Apesar de tudo.
Aí eu percebi, que esse mundo está cheio de poesia, que por traz de tanto sofrimento no meu coração, eu ainda poderia enxergar flores e mais flores, e anjos dentro de pessoas, por toda a parte e por todo o lugar em que eu estiver passando.
Flores e flores... Elas estavam nos olhos das pessoas que sorriam para mim. No calor dos abraços sinceros. Nos cristais de outras pessoas, que nada mais eram que a criança, a transparência por traz das máscaras que tantos usam para camuflar a verdade.
O cristal é o anjo de uma pessoa, é a criança calada por camadas de sofrimento. E principalmente, eu poderia encontrar flores na pureza de anjos genuínos, que falam a plenos pulmões, como aquela menina, como aquela criançinha, que inconscientemente, mudou o meu modo de ver o mundo.
E eu não poderia fugir, em hipótese alguma, de toda essa beleza, pulsando nos lugares menos prováveis. Pulsando dentro de mim.
Magnólia é uma cantora,
compositora, poetisa e escritora brasileira.
As crianças são as almas mais puras desse mundo, tenho saudade da minha infância, tudo era mais claro, tudo tinha tanta cor. Mas aí a gente fica velha, e deixa de perceber as pequenas coisas que realmente valem a pena...
ResponderExcluirAdorei sua crônica calega, e como te disse os melhores e verdadeiros escritores são aqueles que retratam sua própria realidade.